Erick – Minha melhor foto...

Em 31/05/2016


Talvez você pergunte: “Por que começar com a história da melhor foto? Por que não usá-la para fechar o livro com chave de ouro...?”

Se tiver algum reconhecimento a fazer para algum dos meus clientes, certamente este cliente é o meu querido Erick.

Ele tinha dois anos e meio quando o conheci. Aliás, primeiro conheci seus pais que cercado de cuidados procuravam me preparar para buscar, batalhar e alcançar a minha melhor foto. Eu desconhecia a história anterior do menino e também nunca havia sido colocado em confronto com uma verdade tão forte e marcante, por isso o diálogo, a transferência de afeto e a importância que o momento tinha para toda a família.

Muito mais que abertura, tempo, filme, câmara e fotografia, o meu envolvimento com o Erick me ensinou verdades que influenciaram meu trabalho mais que qualquer aula ou livro sobre o assunto. Aprendi que para a mãe, o seu filho é perfeito e o mais esperto de todas as crianças. Aprendi que paciência é talvez o componente principal para uma boa fotografia. Aprendi que espontaneidade é tão importante ou mais que boa composição e aprendi que dedicação produz resultados espetaculares, mesmo em fotografias as mais simples.

Erick era um menino que necessitava de cuidados especiais. Com dois anos de idade mal engatinhava, para deslocar-se pela casa usava seus braços fortes e suas perninhas não tão robustas. Cada metro que avançava era uma vitória. Atravessar uma sala era como se tivesse vencido uma batalha. Ele, o Erick, nem percebia o esforço que fazia, mas seus pais, que acompanhavam toda a sua luta, sabiam que aquele empenho consumia parte das suas energias e logo ele necessitaria de repouso. Mas para Erick este desafio estava apenas começando, pois ao cabo de alguns meses havia conhecido toda a casa e que com sua desenvoltura infantil vencia todas as barreiras e distâncias que encontrava.

E foi assim que conheci Erick. Ele entrou engatinhando sala à dentro e veio em nossa direção. Sentado, próximo aos pais de Erick, observei a luta imensa daquele pequeno ser para fazer o que nós outros conseguimos realizar em segundos sem esforço e sem concentração. E isso fazia dele um herói. E foi assim que o recebi na primeira entrevista, como um pequeno gigante de apenas dois anos e meio de idade.

Quando Erick se aproximou o suficiente e ficou iluminado de forma inteira percebi o tamanho da tarefa que se me apresentava. Erick, além da dificuldade de locomoção, tinha outra deficiência, mais grave por sinal. Uma disfunção no seu pequeno cérebro impedia os seus músculos dorsais de sustentarem a sua cabecinha, fazendo com que esta pendesse ora para a direita, ora para a esquerda e tanto para a frente como também para traz. Não tinha nenhum controle sobre estes momentos.

A mesma zona do cérebro controla também o movimento visual, a direção de foco dos olhos, e esta, Erick também não tinha. Seus pequenos olhos castanho escuro deslizavam suavemente pelas suas órbitas sem controle e sem direção. Um olho para um lado e o outro na direção oposta.

Fiquei desconcertado. Porque, pensei eu, uma criança tão pequena tem tantos desafios pela frente. Será que vai superá-los. Como será a sua vida como jovem ou como adulto?

Enquanto considerava estas coisas com certa tristeza e constrangimento no meu coração, olhei para os pais de Erick. Impressionante! Eles sorriam alegres. A mãe “jogava” beijinhos na direção de Erick. Fazia gracinhas e desafiava o pequeno herói e perceber a minha presença. Com muita dificuldade ele voltou a pequena cabeça na minha direção e então, estupefato e mudo de emoção, percebi o mais belo rosto que havia visto. Um rosto angelical, uma pureza de emoção e o que mais me impressionou, totalmente feliz, nenhum rancor, nenhuma tristeza, nenhum sofrimento. Apenas um rosto lindo, alegre e querendo viver.

Olhei novamente para os pais de Erick e percebi que eles também estavam felizes, desprovidos de qualquer rancor, cobrança ou perguntas. Pude reparar nos seus rostos que Erick era para eles uma criança feliz, alegre e destemida. Era o seu filho amado, sem problemas sem defeitos e sem necessidades especiais. Que desafio imenso retratar aquele semblante tão meigo e transpô-lo para a vida como seus pais e Deus o enxergavam.

Chorei... muito. Percebi naquele momento o quanto de discriminação já havia posto entre mim e aquele pequeno ser. Quanta desculpa havia imaginado para não aceitar o trabalho. Senti-me um lixo, sem escrúpulos e pior de tudo, sem amor. Foi o pior dia da minha vida de fotógrafo profissional.

Sem muita certeza do que iria acontecer comecei a trabalhar naquilo que me parecia impossível de fazer; uma fotografia apresentável para os pais e para a família do Erick. Montei a iluminação, pus filme na câmara, finalizei alguns detalhes e sentei-me na frente do Erick que até então estava deitado no chão alheio a tudo e alheio a minha própria luta pessoal.

O pai do Erick saiu da sala e foi cuidar dos seus afazeres, e a mãe, qual anjo da guarda sem asas, pousava ao lado do filho amado acomodando-o de tal forma para que eu pudesse ver seu rosto de frente.

Então aconteceu o primeiro milagre: Ele me olhou com seu olhar desconcertante e sorriu. Sorriu aquele sorriso aberto, contagioso e divino como que dizendo: “Vamos Paulo; não vai ser tão difícil como parece. Eu te ajudo. Vamos começar”. Naquele instante brotou do fundo do meu coração a primeira centelha do meu amor por Erick, amor, que com o passar dos dias tornou-se imenso e incondicional. Um amor verdadeiro. Considerando este meu primeiro dia como fotógrafo, foi um fracasso, mas, como ser humano foi deslumbrante, inesquecível. Eu aprendera a amar aquela criança indiferente das suas condições de dizer obrigado. E o mais importante, percebi que aquele pequeno gigante também me amava apesar da minha incapacidade de fotografá-lo. O Erick me mostrou que o verdadeiro amor não é condicionado às aparências, mas naquilo que esta no meu interior, no meu coração.

Seguiram-se dias e dias de novas tentativas. Mudamos de lugar, de fundo, de posição. Tentamos usar almofadas para escorá-lo, cadeiras especiais, enfim tudo, tudo o que nos vinha à mente, mas, sem sucesso. Sua cabecinha e seus olhos não paravam para uma foto apreciável. E enquanto a mãe do Erick e eu procurávamos idéias e meios para ajudar na tarefa, agora gigantesca, aos poucos e sem perceber comecei a fazer parte da vida do menino. Já havia descalçado os sapatos a muitas sessões atrás, o próprio equipamento já havia sido reduzido ao mínimo necessário e o ambiente da própria casa ficou familiar para mim, ajudando na descontração.

Neste meio tempo, o Erick manifestava suas necessidades. Resmungava quando estava com sede. A fome era percebida quando começava a choramingar baixinho e o cansaço era demonstrado através de muitos bocejos. Sem perceber, comecei a incorporar os seus sinais e a ajudá-lo com a mamadeira quando tinha fome, segura-lo no colo quando algo o incomodava ou, ajeitando sua cabeçinha para um melhor ângulo nas fotos. Por diversas vezes eu o cobri quando adormecia deitado no chão. Cuidados que agora já faziam parte do desafio da própria fotografia em si.

Passaram-se seis meses com uma sessão a cada quinze dias. Não havia necessidade de agenda, era parte da rotina de trabalho deste fotógrafo profissional. Eu estava consciente da minha decepção como profissional. Não havia conseguido nenhuma imagem que pudesse apresentar aos pais do menino. Inovações no cenário da fotografia e outras sugestões eram consideradas com poucas possibilidades de sucesso. A mãe do Erick e eu simplesmente estávamos deitados no chão em frente a ele esperando um por um milagre.

E, finalmente um dia este milagre aconteceu. Não foi pensado, e nem tampouco preparado. Tudo cooperou para que no momento exato eu estivesse na melhor posição, em frente ao Erick, com todo o equipamento pronto e atento a todos os movimentos dele.

A mãe do Erick levantou e dirigiu-se para a cozinha, que ficava ao lado, para tomar alguma coisa, pois estava com sede. Descalça, como sempre esteve, escorregou no piso molhado da cozinha e precipitou-se para o chão. Na tentativa de se proteger, instintivamente levou os braços para o balcão da pia e bateu com o copo no granito do móvel. Ouviu-se um forte grito do susto e do esforço em evitar a queda.

Erick, ao ouvir o grito da mãe, levantou a cabecinha, girou-a em direção da cozinha e num esforço extraordinário fixou os seus belos olhos na direção do grito. Foi um instante, somente uma fração de segundo e o pequeno herói ofereceu para o fotógrafo a melhor posição, a melhor iluminação e o mais belo sorriso que sabia dar. Um instante... e “click”! Estava feita a melhor fotografia da minha vida. Não houve segunda chance. Não houve novas sessões cansativas. Bastou uma para a gloria deste fotógrafo e para a alegria incontida da sua mãe.

O filme foi enviado para o laboratório e esperamos as amostras com o resultado até o dia seguinte. Foi a noite mais comprida que jamais tive. Não consegui dormir e soube depois que a mãe do Erick também não havia dormido.

No dia seguinte o relógio foi cruel. O tempo não passava. Esperávamos o malote com o resultado de mais se seis meses de trabalho, esperança e amor. Muito amor. E, quando o rapaz do laboratório nos entregou o serviço buscamos avidamente pelo envelope do Erick. Rasgamos o envelope, o tempo urgia, estávamos aflitos e ansiosos em ver o resultado. E como imaginávamos, eis ali, sobre saindo às demais fotografias estava ela. A melhor foto da minha vida. Não havia um defeito. Não havia uma imperfeição no rostinho do Erick. Estava tudo registrado. A cabecinha bem firme e aprumada, o olhar fixo e contagiante e aquele sorriso. Ah! Aquele sorriso de rasgar corações. Tudo! Tudo perfeito.

Chorei... chorei muito. Mas chorei de alegria, chorei de amor. Chorei pelo Erick, meu pequeno herói, chorei pela mãe, um anjo sem asas. Chorei de descontração e certo que tinha alcançado aquela que seria a referência para a minha vida profissional de fotógrafo.

Imediatamente telefonei para a mãe do Erick e disse que estava saindo para sua casa com o que havia de mais bonito no Erick: o seu grande amor pela vida e pelas conquistas que realizou durante a sua breve existência.

A mãe do Erick já me esperava na porta da sua casa. Erick dormia. Quando nos aproximamos nos abraçamos demoradamente e soluçamos juntos numa felicidade incontida e compensadora. Tirei as fotos do envelope e delicadamente as pousei naquelas mãos que tanto amor e carinho haviam me ensinado. Ela olhou para as imagens do seu filho e após alguns segundos de muita emoção, com os olhos cheios de lágrimas me disse: “Paulo! É assim que eu sempre vejo o meu filho. É com esse sorriso que ele sempre me olha e é com esse amor que sempre nos amamos”. E aí, concluiu dizendo: “obrigada por fotografar o Erick como ele sempre foi. Um pequeno herói cheio de amor”.

Meu amigo Erick faleceu quatro anos depois deste episódio com a idade de sete anos. Nunca mais, nunca mais consegui outra imagem do Erick. Nem tentamos. Havíamos conseguido, a mãe do Erick, o Erick e eu, retratar pela primeira vez o que realmente é o amor na sua essência.

Texto de Paulo reichert, do livro F5.6, memórias de um fotógrafo profissional.

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Um olhar pela janela

Em 19/05/2016


Os olhos embriagados de sono e com a língua queimada de chá, lembrei que havia deixado a veneziana da janela aberta no quarto do Henrique. Entrei e, ao espiar o moleque, reparei na parede uma projeção de luzes e sombras perfeitas da cortina e suas rendas. Uma luz muito forte e distante no quarto totalmente escuro, serviu para criar o efeito na parede e também, o mais importante, como inspira