Faça sua fotografia vibrar

Em 05/06/2017


Era um ensaio de 15 anos. A moça, filha única de pais separados, rebelde, fisionomia madura, roupas sensualizadas e Iphone novo em punho. A mãe, velha conhecida. Frequentava nosso estúdio desde a gestação. O pai, lembro dele sempre carregado a tiracolo para o dia do suplício. Nas fotos parecia ser o suprassumo do sucesso, o chefe da família e carregava o semblante da imagem “deixa comigo que eu resolvo”.

Depois de alguns cliques, um ou dois berros, a promessa de um Big Mac, o teorema da derrota se fez na prática. Difícil digerir tudo o que se passava naquele palco. Numa sessão é assim, sempre aparece o melhor e o pior das pessoas. Ficava cada vez mais claro que as fotos da família X não eram para seus álbuns, eram para os outros.


Um teatro.

A platéia? A sociedade.


Agora a história se repetia. Uma menina mulher de 14 anos, perdida, buscando referências para sua juventude, implorando por um norte. Eu sabia que mais um teatro se produziria naquele dia e, de fato, assim foi. Uma jovem se aproximando da vida adulta e uma mãe que insistia em preservar a criança que vira crescer.


Uma recordação em 20 segundos



Por sorte, ao final da sessão, sugeri um desafio, e perguntei se topavam uma foto das duas juntas, para celebrar o sucesso do ensaio. Pedi que ficassem juntas, sentadas no chão, quase que uma no colo da outra. Repousei a mão da mãe sobre o ombro da filha e a mão da filha sobre suas próprias pernas. Pedi que olhassem para mim, tirei o cartão de memória, sugeri que olhassem para a luz, fiz um clique e me dirigi a elas.


- Essa foto que fiz não gravou na memória, está na máquina apenas de passagem. Ela dura uns 20 segundos, serve para visualização, depois desaparece. Vou mostrar ela a vocês e peço que olhem com atenção.


Elas olharam, perplexas com o que estava acontecendo. Era uma foto linda. Continuei:

- A vida de vocês está como essa máquina agora, sem memória, e lhes pergunto, quais são as fotos que estão deixando uma para a outra? Lembrem da imagem que acabaram de ver, onde no colo daquela mãe tem uma menina virando mulher e atrás dessa jovem moça tem uma mãe que errou tentando acertar. Ajudem essas duas mostrando uma para a outra o que estão precisando e ofertem isso. Tenho a certeza de que serão suas melhores fotos.


Temos o poder de mudar a vida de alguém



Nunca mais voltaram ao nosso estúdio, pensei que tinha dado a maior bola fora, até que um dia, agora mais velhas e mais velho, em um corredor do mercado as notei ao longe, radiantes, brilhantes e muito apegadas uma a outra. Tentei disfarçar mas também fui notado. Não trocamos uma palavra, mas os olhos disseram tudo.


Entendi ali que o motivo delas nunca mais retornarem ao estúdio não era porque não queriam mais fotografar, mas porque agora suas fotos eram diferentes, viraram memórias.


Situações como essa acontecem todos os dias na vida de um fotógrafo social e, acreditem, temos o poder de mudar a vida de alguém com uma atitude ou palavra. Então, escolha o momento, as palavras, deixe de disparar a máquina e crie memórias para a sua vida também. Suas novas fotos vão vibrar.


A presente história é verdadeira até a parte em que tiro o cartão da máquina. Imaginei o final para que, além de você, me motive também, pois centenas de vezes vivenciei cenas como a que descrevi e em muitas outras tenho sido a mãe, que erra tentando acertar. Então, que todos nós, independente do lugar que nos encaixamos na história, tenhamos a coragem para fazer o que precisa ser feito e continuemos tentando acertar. Às vezes dá certo.


O que achou do texto? Já refletiu dessa forma? Deixe seu comentário.


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O dia em que aprendi a fotografar

Em 15/05/2017


Pode parecer estranho mas aprendi a fotografar no dia em que passei minha máquina para o automático. Louco, eu sei.Explico: dos 24 anos que estou envolvido na fotografia, 18 deles foram em manual e na marra. Sempre que participava de eventos e palestras de estrangeiros reparava como era difundido entre eles os sistemas automáticos, pensei que podia experimentar. Tentei algumas vezes e deu tudo